A idéia de ir na exposição veio porque (como não é segredo para ninguém) os conceitos de arte, comunicação, tecnologia já se mesclam a muito tempo. Normalmente os suportes tecnológicos utilizados na comunicação são aproveitados na arte, e vice-versa. um exemplo disso é a Pop Art que brincava com cultura pop, tipos de impressão, estética de quadrinhos e visual simulando retículas. Ou alguns trabalhos do artista Miró, como os que já estiveram em exposição no próprio Santander, em que ele utilizava a serigrafia.
Andy WarholA arte normalmente contribui com uma visão crítica destas manifestações.
Uma visão crítica quanto aos meios de comunicação de massa já existe desde a escola de Frankfurt. É interessante porque criticavam os meios massivos por alienar a população, enchendo as cabeças dos coitadinhos com banalidades e fazendo com que perdessem o interesse em obras genuínas. Ao mesmo tempo defendiam que uma verdadeira obra de arte deveria ter uma áura inalterável e irreproduzível. Alguns aninhos depois (1960), Lygia Clark cria a série "Bichos" transformando o espectador da obra de passivo em participante. A obra consistia em esculturas de alumínio com dobradiças, e era permitido às pessoas que alterassem a forma, mechendo nos objetos. Com isso, a artista criticava a própria noção de sacralidade da obra de arte, defendida pela escola de Frankfurt, e da autoria única.
Bichos - Lygia ClarkEm 1964 foi a vez de Helio Oiticica com seus Parangolés que para o criador é uma obra que só se completa com a interferência do espectador, com a vestimenta, o movimento, a dança.
Esse posicionamento contra uma unilateralidade da mensagem exposto na arte relaciona-se com outras críticas do campo da comunicação, como de autores como Ezensberger que falam da liberação do pólo da emissão. Assim, percebe-se que a crítica quanto à interação de mensagens, seja na arte, seja na comunicação é algo já existente a muito tempo, que insurge quase como um vitalismo de baixo para cima.
Recentemente o que se encontra muito em exposições são visões artísticas do formato digital. Já na Bienal do Mercosul em 2007 muitas obras expressavam o excedente de informações experienciado no cotidiano, e a mescla de referências diversas da pós-modernidade.
A FILE é bem mais focada no mundo digital. As interações são todas reativas (apesar de que as mútuas sempre acabam acontecendo de uma maneira ou de outra), mas o interessante é a exploração quanto a todos os tipos de "input" que uma pessoa pode realizar num programa de computador ultimamente. É a evolução da interface. Muitas obras se restringem a cliques no mouse, o que faz com que sejam (para mim) simples formas de inspiração para design. Outras, no entanto brincam com movimento do próprio corpo, a captação da sombra do participante no chão, o virar de páginas de um livro físico, touch screen e até mesmo o soprar de poeira captada por uma câmera. Idéias muito interessantes e inspiradoras, no entanto nada revolucionário. Como disse, muita diferença no "input", mas o funcionamento parece ser o mesmo.
Um exemplo da "mesmice" é uma obra (não anotei o nome, sorry) em que uma câmera no teto produz imagens no chão nas quais o espectador interage como em um jogo de videogame. O "input" do participante é produzido pela sombra que se projeta no chão em cima da "tela" do jogo (e não por intensidade da pisada como alguns acham). São vários joguinhos, mas todos eles têm a mesma idéia de que o participante, cuja sombra representa uma área de pixels, não pode ser encostado por outra área de pixels (uma bola gigante), ou então ele "morre". Na foto abaixo não dá para visualizar tão bem, mas... qualquer semelhança com o Pong, o primeiro video games inventado, terá sido mera coincidência?


Apesar das críticas, recomenda-se fortemente a visita à exposição. Fica até 20 de abril no Santander Cultural.
7 comentários:
Sandra, muito legal as ifnormações que você traz com este texto. É bom ler algo embasado em teoria e conhecimento. Eu até deveria rever o meu post sobre a File, no momento que faço parecer que Miró seria menos técnico que as obras da FIle. VOcê tem razão, ele também se utilizou da técnica, assim como toda "arte" é baseada na técnica. Se me lembro bem das aulas do Rudiger, no princípio, o termo técnica foi criaqdo para designar a arte. :)
Pois é Emanuela, eu não conheço muito as outras obras do Miró, mas lembrei dessa exposição dele. Mas dá para entender o teu ponto no post. Parece que as pessoas esperam que Miró seja mais arte do que o FILE por usar menos técnica, mas não é o uso da técnica que determina a arte (eu também não sou formada em arte, mas para mim arte é aquilo que te passa um sentimento).
Toda a história do conhecimento é feita de correntes principais que sofrem protestos por movimentos rebeldes. E depois os movimentos rebeldes tornam-se a corrente principal e passam a ser protestados (isso está no livro do Peter Burke, "A História Social do Conhecimento"). A arte também funciona assim. Aliás, antes dos movimentos modernistas o que era mais apreciado na arte era a TÉCNICA do desenho, hehe. Para tu ver como as coisas se renovam.
Essa discussão sobre arte sempre dá muito o que pensar.
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